Escrevo-te com a tinta do impossível, no avesso de um tempo que não nos soube abrigar. Dizem os poetas que o amor é uma pátria que se conquista, mas o nosso foi um reino que ruiu antes mesmo de erguer as suas muralhas, soterrado pelo medo e pelas certezas frias da tua razão.
Tu olhaste para o incêndio que nos consumia e viste apenas cinza precoce. Chamaste-lhe paixão, esse vento passageiro que despenteia a alma e logo se deita no esquecimento. Juraste que a pressa do nosso afeto era fumo, uma miragem pintada pela carência ou pelo capricho do destino. Como te enganaste, meu amor. O que sentíamos não era a urgência dos que têm pressa; era o eco de duas almas antigas que se reconheceram num corredor escuro e tentaram, desesperadamente, acender o sol.
Decidiste ficar na margem segura do teu rio, ancorada ao cais que já conhecias, preferindo a penumbra morna de uma história moribunda à tempestade sagrada que eu te oferecia. Escolheste o casulo em vez das asas. Respeito o teu medo, mas choro a tua escolha, porque sei que o que tínhamos não era um acidente geográfico: era o nosso centro de gravidade.
Foste a mais bela nota musical de uma sinfonia que o mundo não me deixou terminar. Agora, resta-me a mecânica triste de viver os dias, sabendo que transporto em mim um segredo que pertencia aos teus abraços. O meu amor por ti não foi um raio num dia de verão; foi uma raiz profunda, daquelas que quebram o asfalto do peito para procurar a água do teu ser.
Não te culpo por teres duvidado da velocidade do milagre. É difícil acreditar na luz quando se passou a vida inteira no inverno. Mas sabe que este amor não morre com o fechar desta porta, nem com o silêncio que agora nos separa como um oceano de chumbo. Ele fica guardado na gaveta das coisas imortais.
Se esta vida foi apenas o ensaio geral do nosso desencontro, aceito o guião com os olhos rasgados de pranto. Vou-me embora com a promessa silenciosa de te procurar no próximo século, na próxima constelação, sob qualquer outra pele. Quando a eternidade nos devolver a oportunidade, e o teu peito já não tiver amarras, verás finalmente que aquilo que julgavas ser apenas um sopro... era, na verdade, o próprio universo a tentar respirar em nós.
Até à próxima vida, onde o tempo não morda e o amor não dê medo.