quinta-feira, 16 de julho de 2026

14/07/24

Escrevo-te com a tinta do impossível, no avesso de um tempo que não nos soube abrigar. Dizem os poetas que o amor é uma pátria que se conquista, mas o nosso foi um reino que ruiu antes mesmo de erguer as suas muralhas, soterrado pelo medo e pelas certezas frias da tua razão.
Tu olhaste para o incêndio que nos consumia e viste apenas cinza precoce. Chamaste-lhe paixão, esse vento passageiro que despenteia a alma e logo se deita no esquecimento. Juraste que a pressa do nosso afeto era fumo, uma miragem pintada pela carência ou pelo capricho do destino. Como te enganaste, meu amor. O que sentíamos não era a urgência dos que têm pressa; era o eco de duas almas antigas que se reconheceram num corredor escuro e tentaram, desesperadamente, acender o sol.
Decidiste ficar na margem segura do teu rio, ancorada ao cais que já conhecias, preferindo a penumbra morna de uma história moribunda à tempestade sagrada que eu te oferecia. Escolheste o casulo em vez das asas. Respeito o teu medo, mas choro a tua escolha, porque sei que o que tínhamos não era um acidente geográfico: era o nosso centro de gravidade.
Foste a mais bela nota musical de uma sinfonia que o mundo não me deixou terminar. Agora, resta-me a mecânica triste de viver os dias, sabendo que transporto em mim um segredo que pertencia aos teus abraços. O meu amor por ti não foi um raio num dia de verão; foi uma raiz profunda, daquelas que quebram o asfalto do peito para procurar a água do teu ser.
Não te culpo por teres duvidado da velocidade do milagre. É difícil acreditar na luz quando se passou a vida inteira no inverno. Mas sabe que este amor não morre com o fechar desta porta, nem com o silêncio que agora nos separa como um oceano de chumbo. Ele fica guardado na gaveta das coisas imortais.
Se esta vida foi apenas o ensaio geral do nosso desencontro, aceito o guião com os olhos rasgados de pranto. Vou-me embora com a promessa silenciosa de te procurar no próximo século, na próxima constelação, sob qualquer outra pele. Quando a eternidade nos devolver a oportunidade, e o teu peito já não tiver amarras, verás finalmente que aquilo que julgavas ser apenas um sopro... era, na verdade, o próprio universo a tentar respirar em nós.
Até à próxima vida, onde o tempo não morda e o amor não dê medo.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

e se eu te quiser

uma noite, ou duas... sem laços, sem nada mais que carinho por um amor que não volta... até porque o meu amor tem outro nome e não o deixaria por nada.
aceitas?

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

prazer

 


às vezes, releio as nossas conversas com a necessidade de justificar os sonhos onde andas nua e fazes rugas nos lençóis através das minhas mãos em desatino. podias vestir uma roupinha de vez enquanto, podia sonhar com a minha insignificância em toda a nossa história ou com a tua indignação por leres coisas que me mantém sã e a ti te fazem lembrar o que tanto queres esquecer. deve ter sido muito confuso e duro para ti. 
eu vivi o que quis, não me arrependo de ter que te vestir nos sonhos, é o preço que tenho que pagar para te ter tido. acho que foste a que mais sofreu. consigo essa capacidade analítica com a distância do amor que será sempre teu. esse amor só meu é o maior dos desperdícios. tem dias que penso ser a tua caixa de pandora. mas ser uma caixa de pandora acarreta um desejo que não creio existir. mentiria se parte de mim não grita por um amor que tu escondeste, talvez até mataste. não acho que possamos matar o amor, ele morre sempre quando quer. 
às vezes, sou um monstro maior, porque é maior que a minha capacidade do que está certo, e aproveito-me da tua nudez e tenho orgasmos tão profundos como a cama desalinhada ao acordar. e eu acordo inundada de ti ainda a ouvir os teus gemidos, e volto a tocar-me fechando os olhos e imaginando minhas as tuas mãos. o teu toque num misto de desespero e surpresa, de ansiedade e pertença. bom, alguns adjetivos podem ser minha imaginação, até o teu prazer pode ter sido. ou foi! 


sábado, 13 de setembro de 2025

um monstro


aquele sonho de criança pequenino, como a pequenina que o sonhou. devia ter postado uma fotografia de relógio porque de tempo quero falar. o tempo das coisas é incrível. e que digam que ele é renovador, que da voltas como os ponteiros, apraz-me dizer que o tempo é manipulador e sarcástico. 

estou a viver o tempo que tudo acontece na minha vida, onde tudo flui, onde estou a colher os frutos de tantas contendas e tantos sacrifícios. e a verdade é que tudo acontece depois de a ter conhecido. ela fez-me encontrar uma paz que pensava ter perdido para sempre e mostrou-me que o meu amor é um camaleão. tudo isto parece uma prosa de primavera e de romance fácil. bom, até foi fácil, porque ela faz-me querer ser melhor todos os dias. e eu amo-a profundamente, visceralmente.

ela edificou-me paredes em quatro anos de ruinas em pó, a ela devo tanto, se ela soubesse... se ela soubesse o que me deixou em nada e a ser levada pelo vento até ela. e eu fecho as mãos e ardem-me os olhos da raiva que sinto de mim, porque sentir-te para sempre faz de mim o maior dos monstros aos olhos da minha consciência e do respeito que tenho por ela. a sorte é que aprendi com o tempo a saber de ti e a controlar a paixão que existiu um dia além do amor. o amor ficou, incontornável, como não sei explicar, não creio que os maiores dos lirismos consigam. diria que é tão sublime como cruel.

hoje sinto-me o maior dos monstros. é isso. a verdade crua - com a certeza que também não sei explicar- que se pudéssemos estar a um respirar uma da outra, teria que me matar para não te querer.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

7 anos de ti

 sete anos passaram. e podiam ser no Tibete, ou fazer o papel de coitadinha e dizer que foi um inferno. que foi. parte de mim jamais recuperei, a mesma parte que fico a recordar, que é tua, será sempre tua. pode ser romance, mas prefiro dizer que é como sinto. tentei matar-te, matando-me o amor, mas não há maior estupidez. o medo de amar é a pior que as carraças. foi quando me deixei amar-te, dormindo num choro acomodado com o fado das nossas vidas, quando deixei de sofrer. o amor é libertador.

é um filho da mãe, o amor. mata-te em vida, faz-te andar em coma e a sentir tudo e todos à tua volta, quando nem estás ali e em lado algum, como se fosse uma bolha que me confortou da fraqueza do que não tive capacidade de suportar. e não suportei. mendiguei o meu coração por aí, recuperei quando te aceitei para sempre. escrevi prosas de ódio a rimar com o teu nome, escrevi muito mesmo. nunca vi tanto amor em tanta palavra amarga, e eu juro que fiz de tudo para não amargurar e ficar irreconhecível.

mas fiquei diferente. ficamos todos. afinal 7 anos são muitos anos. às vezes, penso - quando me desce a compaixão por tudo o que nunca vou voltar a ser e fui contigo- será que pensas em mim? será que tiveste vontade de um abraço meu, se é que lembras sequer que me deste um abraço e como o sentiste... não, não vou ficar ressabiada. é o que é e o que foi. fomos as mais felizes em Italia e as mais apaixonadas num total de meio dia de paixão de vários tempos. 

o restante das vezes, julgo que apenas sou uma má memória, algo que esqueceste muito fácil, e eu fico feliz, sinceramente com essa facilidade, porque não há como esquecer alguém que se ama. fizeste a escolha certa. 

terça-feira, 24 de junho de 2025

fomos

 


consegui convencer-te depois de muitos dias de forma mais ou menos eloquente, que a caravana para a viagem seria o ideal. quando concordaste com a caravana pulei no teu colo e caímos no teu sofá. lembro daquele amor que fizemos meio amor meio ódio, eu feliz e tu chateada porque já estavas farta de argumentar o contrario. aquele amor que não quer ser feito, mas de tanta vontade corrompe tudo o que edificas para manter essa tua capacidade de controlo…

sei que tantas vezes ganhei-te apenas no teu cansaço, que raramente deste o braço a torcer, mas  que passamos duas semanas d sonho  a conhecer o norte do pais onde o romantismo é a palavra chave. bom, romantismo e arquitetura, historia, beleza e elegância. escusado será dizer as vezes que falamos de fotografia e argumentamos apaixonadamente por visões diferentes que na realidade, nem são tão diferentes. fizemos poesia com a luz que foi muito generosa nesta altura do ano.

discutimos muito, sorrimos tanto. no final da tarde gostava da tua vulnerabilidade quando deitavas a tua cabeça no meu colo quando estava a ler algumas paginas do livro que levei, até o sol se por. sei que fechavas os olhos sem te ver, aprendeste a adição do meu vaguear os meus dedos no teu cabelo num bailado a querer dizer-te mais do que as musicas que em casa tocas para mim no teu piano abandonado antes de mim. e antes de mim tanto na tua vida e na minha. depois de mim tanto mais!




quinta-feira, 19 de junho de 2025

para queimar a terra...


podia dizer que temos um assunto mal resolvido. coisas mal resolvidas ficam a pairar no ar, e vão e veem como as ondas do mar na cadência que não controlamos, e nunca param, assim como o tempo. diria que ontem traiu-te a tua curiosidade, e acredito que apenas tenha sido isso mesmo, curiosidade. 

podia dizer que temos um assunto por encerrar, que com o tempo, teria duas ou três coisas para te dizer do alto de quem superou as pedras do seu caminho e está mais do que preparada para as que estiverem no caminho ainda por percorrer. 

foste uma criatura cruel, desumana e sem qualquer sensibilidade. às vezes, gosto de pensar que tudo foi doloroso para ti, a atitude e a decisão. assim, talvez me consiga justificar o amor, quase platónico, quase sublime, mas que me embalou durante algum tempo e do qual prefiro guardar os melhores sorrisos que me desenhou ou os calafrios de uma paixão sem sentido carnal.

a maioria das vezes quando me passas pela cabeça, ou porque te apresentas nas redes sociais e não há como contornar, tenho-te um ódio capaz de gelar o que ainda não tens gelado. depois, o tempo passa e esqueço que existes, e apetece bater-me por deixar que ainda, por alguns momentos, faças-me sentir alguma coisa, mesmo que seja ódio. eu não odeio ninguém. nem a ti!

estou a pensar nas duas ou três coisas que não quererás ler, saber ou ouvir. 

um monstro não se importa com o que partiu ao próximo - nada disso é bíblico - tão pouco sabe o valor das coisas pequenas, como o desnudar na confiança do espaço preenchido apenas, qual porto seguro, feito de silêncio - que eu te aceitaria feita tonta - mas jamais imaginei o fel da criatura que se acha superior às demais.

eu prefiro pensar que é só a tua forma de manter tudo à distância, da tua dor nunca se saber.

e eu poderia escrever, talvez até escreva, os filmes que nos fiz, as coisas que idealizei contigo. às vezes, penso que tudo foi um sonho, ou pesadelo, como lhe quiseres chamar. há "ses" tremendamente inexoráveis...